
Voltando de uma visita a cliente, estaciono meu carro no segundo subsolo do moderno prédio onde trabalho. Vou até o hall de elevadores e um chega rápido. Entro. Sozinho. Estico o braço para apertar meu andar, um gesto quase automático depois de tantas repetições, mas o dedo pára no meio do caminho. Vários botões estão já acesos no painel, incluindo o botão do meu andar. Imediatamente penso: tem algo estranho com esse elevador. Mas antes de concluir o pensamento as portas se fecham e o elevador começa a subir.
Subo, subo e páro. Mas as portas não se abrem. No painel high-tech logo acima dos botões aparece que estou parado no segundo andar. Dou mais uns 15 segundos e finalmente concluo: estou preso em um elevador quebrado. Aperto o botão de alarme, e ouço o irritante barulho. Aparentemente só eu ouvi...
Puxo o celular do bolso: sem sinal. Olho mais para cima e vejo o botão do interfone integrado ao painel. Aperto e milagrosamente sou atendido de imediato por uma educada voz. Explico a situação ao rapaz. Ele pergunta meu nome. Respondo. Daí alguns segundo ele volta a perguntar meu nome, só que dessa vez quer o nome completo e qual empresa eu trabalho. Não consigo deixar de pensar: "Xiiii... o procedimento padrão deve ser para identificar possíveis vítimas de acidentes em elevador enquanto estão vivas.". Respondo, ainda calmo. Ele me pede para aguardar.
Passado um minuto a voz me pede para ter calma pois um bombeiro já está a caminho para abrir as portas do elevador. Agradeço, mas penso sozinho: "Caramba, deve ter quebrado mesmo. Não conseguem acionar nada remoto e um bombeiro vai ter que intervir!".
E aí começa a parte mais emocionante. O elevador começa a subir, subir, subir... o painel vai mostrando 7... 9... 15... e finalmente pára no 18. Mas não é uma parada normal.... dá umas tremidinhas enquanto freia. E nada de abrirem as portas. Penso: "Bom... uma queda dessa altura e viro um patê.". Solto a mochila, colocando-a no chão do elevador.
A voz volta: "Senhor Marcos, peço mais um pouco de paciência que o bombeiro já está a caminho.". Com a voz já um pouquinho seca respondo um simples: "Ok". Puxo novamente o celular. Nada de sinal. O elevador começa a descer. Mas a sensação de alívio dura pouco. Ele pára no décimo quarto. E aí o tempo fecha: as luzes se apagam totalmente. Escuro total. O elevador começa a dar uns solavancos. E nessa hora, por mais ateu que você seja, você apela para a tal da "força maior ou sei lá o quê" e pede para que sua família seja bem cuidada na sua ausência. O ser humano é engraçado, e nessas horas descobrimos interessantes coisas a nosso respeito. Descobri, por exemplo, que minha preocupação é muito maior em relação às pessoas que deixaria do que comigo mesmo. Imagino que outras pessoas reagiriam de maneira semelhante, mas outras bem diferentes.
O elevador pára. E no painel high-tech aparecem informações correndo verticalmente... é um processo de reboot! Geek do jeito que sou não consigo deixar de buscar identificar qual é o sistema operacional por trás da geringonça. Seria alguma distribuição de Linux? Terminado o processo, as luzes voltam a se acender. Aciono o interfone novamente. A voz me diz: "Senhor, as luzes podem apagar pois deveremos fazer um processo de reboot do sistema.". Fiquei com vontade de responder ironicamente algo do tipo: "Ahhhh, filho da p... muito obrigado por avisar". Mas não. Sou educado. E digo: "Na verdade isso acabou de acontecer. O que vem em seguida?". A resposta: "O elevador vai parar em um andar e as portas vão se abrir para o senhor sair.". Maravilha.
O elevador sobe novamente. Penso: "Bem que podia descer ao invés de subir.". Páro no décimo oitavo novamente. E as portas se abrem. Mas para meu espanto dou de cara com um tosco muro de tijolos. A voz pergunta: "Senhor, as portas se abriram?". Explico o ocorrido e a voz me promete que resolverá tudo rapidamente, mas me pede para ter paciência e me manter longe das portas. Percebo então que a situação está longe de estar totalmente sob controle.
As portas se fecham lentamente. O elevador desce novamente até o décimo quarto. As portas se abrem e percebo que parei na metade do andar. Uma voz me chama: "Senhor! Senhor!", mas os chamados não vêm do interfone. Ouço mais alguns ruídos e percebo que tem alguém de pé em cima do elevador: "O senhor consegue sair?". Respondo que sim, mas eu teria que escalar a mureta, pulando por cima. A nova voz me pede para fazer isso então. Mas exijo: "E quem me garante que esse elevador não vai começar a descer bem na hora que eu estiver tentando pular a mureta?". Com muito sossego e transmitindo confiança a voz responde: "Não tem problema. Eu travei o sistema. Pode ir.".
Primeiro arremesso minha mochila. E na sequência a missão é fazer com que meus mais de 100 quilinhos passem por cima da mureta. Até que foi fácil. A vontade de sair de lá de dentro foi maior. Havia um senhor no hall do décimo quarto que ficou me olhando surpreso quando surgi praticamente do nada, como um moleque que escala um muro para roubar mangas.
Olhei no relógio: meia-hora havia se passado. Mas enfim... tudo havia terminado bem.
E para descer para meu andar conforme originalmente planejado, simplesmente apertei o botão e aguardei o próximo elevador. Entrei. Haviam mais algumas pessoas. Com a adrenalina ainda um pouco alta, relatei às pessoas resumidamente o que havia acontecido, aconselhando-os a evitar o elevador número 2. Um rapaz que me ouvia com cara de espando disse que se isso tivesse acontecido com ele provavelmente não iria acabar bem pois ele sofre de claustrofobia.
Mas claustrofóbico ou não, elevadores aí vamos nós. Por favor, sem novos reboots!
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